O Quilombo

Dizem que somos negros.

Este facto pode parecer acidental, mas nem por isso se torna negligenciável. Toda a nossa existência é enformada por ele. Todo o nosso percurso, desde o primórdio uterino ao dia presente, se processou dentro dos limites que nos foram impostos por esta condição. Assim, compreender exactamente o que significa ser “negro” tornou-se muito cedo, para nós, uma necessidade. Em boa verdade, todos os negros o fazem mais ou menos conscientemente — ousamos até dizer que nem um único negro no mundo é capaz de alcançar a idade da razão sem albergar já, no seu íntimo, um certo número de certezas a este respeito.

Da nossa parte, parece-nos que pelo menos um facto é evidente: ser negro é ser oprimido.

Ora, O Quilombo é precisamente um esforço colectivo de análise, sistematização e exposição da experiência negra com a finalidade de produzir e disseminar um conjunto de teorias sociais e políticas que sirva de arma na luta contra a opressão e a exploração.

Neste ponto, devemos deter-nos para prestar alguns esclarecimentos.

É por demais comum que, ao inaugurar um blogue, autores se dediquem a patéticas enunciações sobre a liberdade de expressão pela qual se pautará o novo sítio da blogosfera, insinuando uma oposição entre tecnocracia e política para, de seguida, se declararem livres da segunda na mesma medida em que se firmam na primeira. Nós, quilombolas, só podemos responder a tais autores com escárnio. Não há maior demonstração de cobardia do que a ostentação das vestes bafientas da neutralidade. Todos aqueles que se cobrem com elas fazem-no apenas para esconder a sua estima pelo status quo e a insalubridade dos seus argumentos.

O Quilombo não pretende ser nem neutral nem “livre” na acepção burguesa e hoje vulgarizada do termo. Este é um espaço onde as falácias, a mentira, o revisionismo, o oportunismo, o populismo e todo o discurso reaccionário serão rechaçados com intransigência absoluta.

Se dizem que somos negros, afirmamos que somos igualmente proletários — para ganhar o pão de cada dia, dispomos apenas da nossa força, seja ela muscular ou cerebral. E em ser proletário, como em ser negro, existe um conjunto incontornável de interesses que se antagonizam com os interesses dos que vivem da exploração do nosso trabalho — esses serão sempre os nossos inimigos.

Cientes deste facto — a luta de classes —, faremos análises da realidade que partirão da infra-estrutura económica da sociedade, i.e., utilizaremos o método materialista-dialéctico.

Para lá do método, nenhuma análise será livre de refutação, unanimemente aceite entre quilombolas ou estanque. Não pretendemos anular à partida qualquer contradição que exista entre nós, posto que ela é a mãe de todo o movimento e só na dialéctica poderão as nossas ideias evoluir e fortalecer-se.

Viemos resgatar as palavras raça e racismo da obscuridade a que foram condenadas, para as devolver à luz do dia. Viemos ser o toque de finados do discurso sentimentalista e moral sobre a “discriminação” das “minorias étnicas” que é repetido ad nauseam pelo exército burguês de altos-comissários, politiqueiros oportunistas, jornalistas incompetentes, fúngicos comentadores televisivos, historiadores revisionistas, sociólogos mistificadores, antropólogos exotistas e toda a estirpe de académicos pedantes que mais não fazem do que reproduzir as relações de dominação existentes ao procurar abstraí-las do mundo material e transportá-las para a dimensão alucinada dos espíritos — negando, portanto, a natureza fundamentalmente económica dessas relações.

Na verdade, desde os guetos negros e árabes da Europa e dos Estados Unidos até às minas da África do sul onde se derrama o sangue de operários martirizados na ponta de metralhadoras, desde as infernais fábricas têxteis alimentadas com trabalho infantil no sudeste-asiático às terras confiscadas dos indígenas sul-americanos e desde o muro da Cisjordânia aos degradantes e sobrelotados guetos de aborígenes australianos, o inimigo é o mesmo: o imperialismo — fase superior do capitalismo, possibilitador de lucros avultados e terreno fértil para a partilha do mundo pela classe burguesa. Mas esta sobre-exploração da força de trabalho dos povos neocolonizados, com todo o horror genocida que implica, só pode ser mantida através do racismo. Fazemos, por isso, nossas as palavras de Fanon:

O racismo entra pelos olhos dentro precisamente porque se insere num conjunto caracterizado: o da exploração desavergonhada de um grupo de homens por outro que chegou a um estádio de desenvolvimento técnico superior. É por isso que, na maioria das vezes, a opressão militar e económica precede, possibilita e legitima o racismo.

O hábito de considerar o racismo como uma disposição do espírito, como uma tara psicológica, deve ser abandonado.[1]

Os Quilombolas

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[1] Frantz Fanon, “Racismo e Cultura,” in Em Defesa da Revolução Africana. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980.

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