Ativistas portuguesas fazem 24 horas de greve de fome em solidariedade com Tekbar Haddi*


Em frente à Assembleia da República

Início – dia 1 de julho às 15h

Fim – dia 2 de Julho às 15h

As ativistas portuguesas Isabel Lourenço e Helena Brandão irão realizar das 15h00 de dia 1 de julho às 15h00 de dia 2, 24 horas de greve de fome, em frente à Assembleia da República, na sequência de um apelo internacional lançado pelo movimento de apoio a Tekbar Haddi, uma mãe saharaui que esteve 36 dias em greve de fome.

No passado dia 15 de maio, a cidadã saharaui Tekbar Haddi iniciou uma greve de fome, em Las Palmas, reivindicando que o governo marroquino lhe devolvesse o corpo do seu filho, de forma a poder enterrá-lo condignamente, exigindo também uma autópsia e a investigação dos acontecimentos que levaram à morte do jovem. Tekbar Haddi reiterou que está disposta a morrer se não conseguir recuperar os restos mortais do filho, mas teve que interromper a sua greve de fome uma vez que os seus órgãos vitais estão severamente afectados.

Foi na sequência destes acontecimentos que o movimento de solidariedade lançou esta «Greve de Fome em Cadeia», que envolve já vários países. Dezenas de deputados, atores, atletas, investigadores, sindicalistas, ativistas aderiram a esta iniciativa apoiada por mais de 400 organizações.

A força e a dimensão desta iniciativa tem sido de tal forma inédita que no dia 20 de maio Tekbar Haddi, ainda em greve de fome, foi recebida por um grupo de eurodeputados em Estrasburgo e mais recentemente, a 25 de Julho, esteve em Genebra a expor o seu caso perante a 29ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas.

As ativistas portuguesas compreendem que nem todos possam ou queiram fazer greve de fome mas agradecem todo o apoio de quem esteja solidário com esta causa, como a presença junto à Assembleia nos dias 1 e 2 de Julho, ou ajuda na divulgação da iniciativa. Da sua parte, além deste gesto simbólico, irão também entregar na Assembleia da República um documento aos deputados dos vários grupos parlamentares.

O CASO TEKBAR HADDI E DO SEU FILHO MOHAMED HAIDALA

A 31 de janeiro de 2015, Mohamed Lamin Haidala, de 21 anos, foi atacado de forma violenta por colonos marroquinos, em El Aiun, capital do Sahara Ocidental ocupado, tendo sido esfaqueado no pescoço. As autoridades marroquinas detiveram Haidala e não lhe foi prestado auxílio médico: o ferimento do pescoço foi cozido por um enfermeiro, sem anestesia, sem que fosse desinfetado; as restantes feridas e lesões não foram tratadas. Passou dois dias na esquadra, no chão, sem cobertores. No dia 2 de fevereiro ainda foi levado de novo ao hospital mas como não recebeu tratamento, acabou por falecer no dia 8 desse mesmo mês.

Os médicos recusaram-se a fornecer qualquer documento escrito à família e Tabkar Haddi assegura que as autoridades marroquinas lhe ofereceram 90.000€ para ficar em silêncio, sem reclamar o corpo do seu filho. A casa da família em El Aaiun permanece cercada pelas autoridades marroquinas, tendo sido alvo de vários ataques e até agora os colonos que agrediram mortalmente Haidala não foram presos. Este acontecimento não é um caso isolado e é consequência direta da grave violação de direitos humanos a que são sujeitos os saharauis residentes nos territórios ocupados.

Apesar das inúmeras resoluções das Nações Unidas, a ocupação ilegal do Sahara Ocidental persiste. É urgente que a comunidade internacional honre definitivamente os compromissos que assumiu com este povo e que sejam implementados os mecanismos necessários (nomeadamente o referendo) para que a sua independência seja alcançada o mais rapidamente possível.


EXIGÊNCIAS DA FAMILIA DA VÍTIMA 
ÀS AUTORIDADES OCUPANTES MARROQUINAS

“Después del asesinato de mi hijo en circunstancias muy confusas a manos de colonos marroquís y con el respaldo de las autoridades de ocupación y la negligencia médica intencionada, me trasladé al Aaiún para conocer los hechos de primera mano.

Al conocer la magnitud de la injusticia de las circunstancias de su asesinato y muerte, decidí investigar y esclarecer los hechos hasta las últimas consecuencias: me dirigí al Ministro de Justicia y al Procurador General del Rey en El Aaiún sin obtener ninguna respuesta, y luego volví a escribir al mismo Procurador solicitando información sobre el destino de las denuncias y reivindicaciones.

Por respuesta no obtuve más que el refuerzo del asedio policial y los asaltos a la casa de mi familia y las calles que llevan a ella, con lo que conllevó de torturas dentro de la casa y destrucción de bienes. Todo esto por no doblegarnos ante el diluvio de presiones y ostentosos sobornos (90.000 euros) a cambio de firmar el entierro de nuestro hijo en silencio y abstenernos de cualquier demanda de autopsia, investigación u otra.

Por todo esto, anuncio mi entrada en UNA HUELGA DE HAMBRE INDEFINIDA HASTA CONSEGUIR MIS MÍNIMOS Y LEGÍTIMOS DERECHOS como persona o MORIR EN EL INTENTO:

1º Solicito la apertura de una investigación independiente sobre este crimen y aclarar las circunstancias que le rodearon, debido a que las autoridades de ocupación, con este método, pretenden secuestrar la verdad y enterrarla con la  víctima.

2º Detener a los tres colonos Bouchaaib Dinar, Abderrahim Dinar y Yassin Al-Marbouh, que aún quedan en libertad sin ningún seguimiento por parte de la acusación pública ni el juzgado de instrucción.

3º Apertura de una investigación sobre un conjunto de sus demandas expresadas en la querella número 09/3104/2015 entregada el 12 de febrero de 2015 al llamado procurador del rey de la corte de apelación en El Aaiún ocupado que reclama la detención de los cinco colonos que participaron en el asesinato de mi hijo Mohmed Lamine Haidala

4º Investigar las causas de la negligencia médica en el trato de mi hijo en el hospital y juzgar a los responsables, sobre todo al doctor El Hachmi Naoufal.

5º Exijo Investigar la detención e interrogatorio y tortura de mi hijo en una comisaría por la policía marroquí sin considerar su estado de salud.

6º Exijo la exhumación y autopsia del cadáver de mi hijo por médicos especialistas e imparciales, para aclarar las  causas

7º Entregar los restos mortales a la familia para tener un entierro digno

8º Detención de los responsables de la policía judicial de la llamada wilaya de seguridad de El Aaiún.

9º Indemnizar a la familia tanto por la muerte de su hijo como por los daños físicos, psicológicos y materiales sufridos por los familiares a manos de la policía.

10º Levantar el estado de sitio que entra ya en el cuarto mes cercando la casa familiar con tres salvajes asaltos al interior de la vivienda con todo lo que ha conllevado de torturas y destrucción de pertenencias.”

(http://justiciaparahaidala.blogspot.pt/p/huelga-de-hambre.html)

BREVE CRONOLOGIA

14 de maio – Tekbar Haddi  dá conferência de imprensa anunciando a greve de fome.

15 de maio – Começa a greve de fome.

20 de maio – Tekbar é recebida em Estrasburgo por um grupo de eurodeputados (sem interromper a greve de fome)

3 de junho – A mãe de Tekbar inicia uma greve de fome de 3 dias em frente à sua casa em El Aaiun, em solidariedade com a sua filha. A polícia ataca a casa e obrigando- a refugiar-se no seu interior. A casa fica sitiada

7/8 de junho – A Rede Internacional de Trabalhadores, aprova uma resolução de apoio a Tekbar Haddi.

8 de Junho – O Partido Ecologista Os Verdes de Portugal condena as graves violações de direitos humanos nos territórios ocupados e manifesta a sua solidariedade com Tekbar Haddi.

12 de junho – 165 eleitos políticos espanhóis apoiam a petição de Tekbar Haddi

13 de junho – Greve de fome colectiva de 24h na Galiza em apoio a Tekbar Haddi.

16 de junho – Tekbar Haddi é levada ao hospital pela quarta vez desde que iniciou a greve de fome: vomita e cospe sangue.

17 de junho – Presos políticos saharauis iniciam greve de fome solidária de 48h. Tekbar Haddi denuncia que vários membros da sua família estão a ser agredidos pelas autoridades marroquinas nos territórios ocupados.

18 de junho – A policia espanhola sugere que Tekbar Haddi saia de frente do consulado marroquino e prossiga a greve de fome noutro local. Ela recusa.

19/20 de junho – Tekbar suspende a greve após ser novamente hospitalizada, mas o movimento solidário de imediato lança a «Greve de Fome em Cadeia» com Teresa Rodriguez do partido Podemos.

20 de junho – Manifestação de apoio a Tekbar Haddi em Las Palmas.

22/23 de junho – Hassana Aalia prossegue a greve de fome nem Cadeia.

25 de junho – Tekbar Haddi é recebida pela 29ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra

MAIS INFORMAÇÕES EM:

CONTACTOS: 

labadil.pt@gmail.com


*O texto integral é da autoria das activistas que promovem a acção.

Sobre os acontecimentos no bairro da Cova da Moura

10444021_10153113886854600_1784118778065186904_n

Primeiro levaram os negros, disse Brecht no seu poema. Na passada quinta-feira, dia 5 de Fevereiro, a brutalidade policial revelou novamente a sua face mais cruel e racista no bairro da Cova da Moura. Ao dealbar dos acontecimentos um jovem foi detido e várias testemunhas sofreram com balas de borracha disparadas arbitrariamente. Entre as vítimas contavam-se deficientes físicos, uma senhora e o seu filho de três anos. No final do caos houve ainda tempo para a PSP de Alfragide deter e agredir mais quatro jovens que se deslocaram à esquadra para – imaginem o crime – pedir mais informações sobre o sucedido [1]. Em suma, mais um episódio inenarrável da opressão a que negros e negras deste país estão sujeitos pelo simples facto de existirem e habitarem na periferia. Contudo, e apesar da barbárie, os actos discriminatórios do aparelho repressivo não devem ser analisados numa óptica moralista e idealista que procura explicar as relações sociais através da individualidade e da vilanização, pouco contribuindo para a compreensão da realidade. O sujeito engajado na luta contra o racismo tem de compreendê-lo como fenómeno superestrutural; uma ideologia legitimadora das actuais relações de produção que visa a sobre-exploração de imigrantes e seus descendentes como força-de-trabalho barata e destituída de direitos. Tudo baseado numa essência racial que não existe.

Nem a propósito lembrei-me de um artigo [2] de Frank Talk, pseudónimo do activista sul-africano Steve Biko [3], que remete para a importância do medo como elemento determinante no espaço político para a repressão da comunidade negra no apartheid sul-africano. A propósito das agressões e das detenções aleatórias, o autor defende que uma minoria representada pelo governo necessitava de fazer amiúde uso da violência institucional para justificar um mito criado junto da população branca que associava a emancipação dos negros a uma ameaça à estabilidade e à segurança. Este calculismo servia para manter os privilégios de uma classe burguesa branca que vivia da exploração da mão-de-obra e da concentração de capital no território. Mais, a perpetuação desta dominação pressupunha a total desumanização do negro e desincentivo a qualquer resistência, tendo como finalidade a invenção de um inimigo pelo qual o proletariado branco se sentisse intimidado e não procurasse relações de solidariedade.

Não querendo desmerecer as devidas diferenças de contexto numa abordagem à situação portuguesa, os paralelismos podem ser encontrados. No bairro da Cova da Moura, como em outros, a população residente é alvo das mais variadas mistificações com especial incidência sobre a população negra e cigana. As acusações variam do “roubar emprego” aos portugueses até “viver dos subsídios” ou “serem criminosos”; um chorrilho de disparates e estereótipos que favorecem quem tenta procurar uma explicação para uma política económica que baixa salários, facilita despedimentos e alimenta um serviço de dívida com cortes na saúde e na educação. A verdade é que o capital controla o fluxo imigratório a seu bel-prazer e de acordo com a necessidade de força-de-trabalho num determinado ciclo económico. É o seu joguete para criar um exército industrial de reserva, um manancial de desempregados, ou para pressionar o nível salarial para baixo. Se uma crise de sobreprodução estala e é acompanhada do saque e despedimento dos trabalhadores, os culpados estão encontrados, mesmo que sejam dos primeiros a serem despedidos ou não contratados numa entrevista de emprego.

Este racismo pressupõe que certas camadas da população trabalhadora não vivam a cidadania plenamente. Que aceitem a chantagem e o ataque sem aderirem à luta coletiva pela dignidade no trabalho e no espaço público. Para isso, o governo faz uso da desigualdade de direitos entre autóctones e imigrantes, da discriminação entre trabalhadores brancos e negros e da violência institucional. Por sua vez, a voz mediática da burguesia procura alimentar e condenar qualquer tentativa de defesa contra a repressão do Estado como foi o caso do Correio da Manhã na cobertura deste último episódio de violência policial na Cova da Moura [4]. Todavia, o medo não é eterno e a organização é o primeiro passo para a resistência em nome da dignidade. As comissões de moradores dos bairros mais atingidos pela brutalidade policial necessitam de se relacionar para unir forças e recuperar a sua importância política. É preciso sair à rua e denunciar os tempos que vivemos com a solidariedade de todos e todas. Voltando a Brecht:

Primeiro levaram os negros
mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram os desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

No dia 12 de Fevereiro está convocada uma concentração contra a repressão policial em frente à Assembleia da República pelas 17 horas. Partiu de moradores do bairro da Cova da Moura e colectivos solidários.


[1] Para ler um relato mais detalhado sugiro o blog: observatório do controlo e repressão. ver: https://observatoriodocontroloerepressao.wordpress.com/2015/02/06/relato-da-cova-da-moura-e-de-alfragide/

[2] Biko, Steve (1978) Fear – An Important factor in South African politics. In I Write What I Like, Nova Iorque, Harper & Row, pp. 73-78.

[3] Steve Biko (1946-1977) foi um importante activista pelos direitos dos negros e na luta contra o apartheid sul-africano. Escreveu inúmeros artigos sobre a política do seu país e em torno da consciência negra . Antes de completar 31 anos acaba por ser assassinado às mãos da polícia em Setembro de 1977.

[4] Tavares, João (2015). Tentam Invadir a Esquadra. Correio da Manhã. 5 de Fevereiro de 2015. Ver: http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/portugal/detalhe/esquadra_da_psp_de_alfragide_invadida.html

Continuar a ler

Um dia no Parque da Paz (?)

No outro dia havia o meet que afinal não teve lugar. No dia de ontem soube-se que os jovens que – segundo alguns – mereciam uma pena pesada, afinal terão a pena suspensa por um meet que ainda não se percebeu sequer se existiu nem o contexto em que foram detidos. Como estes há muitos dias e sítios pelo mundo, de Ferguson a Lisboa passando por Almada. De alvejamentos, acusações arbitrárias e humilhações.

No outro dia, mais precisamente 26 de Agosto, teve lugar mais um daqueles nadas – mais uma vez segundo alguns – que ameaçam se tornar em algo mais. Já conhecemos a história do “não somos a Grécia” e do mito luso-tropicalista do Portugal não-racista, por isso deixemos o testemunho falar por si. Este relato foi enviado para o nosso blog por alguém que assistiu a um meet policial no Parque da Paz:

Ao passar junto à entrada sul do Parque da Paz em Almada, vi uma carrinha da PSP, com três agentes no interior, a entrar no parque, com o caminho a ser aberto por um dos carrinhos de jardinagem do parque. A carrinha seguiu até junto do muro de limite do parque um pouco mais a sul, onde os agentes saíram junto a um grupo de cerca de uma dezena de rapazes negros. Vários não tinham tshirts e estavam claramente a arrefecer e descansar sentados no muro depois de praticar desporto.

Estava ausente qualquer indicação de ter sido cometido qualquer crime, o que não impediu os “agentes da autoridade” de importunarem os jovens, certamente chamados ao local por algum leitor ávido do Correio da Manhã, que viu mais do que três jovens negros juntos e sentiu o terror de classe média de ser “arrastado”. Noção tanto mais rídicula se tivermos em conta que estamos no Parque da Paz, onde a coisa mais valiosa que há para roubar são pinhões e os calções encharcados em suor dos corredores, dificilmente o tipo de tesouros que justifiquem o esforço.

Os rapazes foram interrogados, alguns sozinhos no interior da carrinha. Um deles levou uma marretada no nariz porque se riu de uma brincadeira de um amigo na presença dos xôr agentes que, como se sabe, têm fraca auto-estima e não suportam que se riam na sua presença.10 minutos depois de chegar, a polícia foi-se embora de mãos vazias, em mais um episódio de rídiculo que desafia a descrição.

 

Consta que não compareceu a comunicação social e não foi publicada  uma única nota de rodapé no Correio da Manhã. Para uns são dias; para outros, todos os dias.

Do arrastão ao meet

Uma mentira contada muitas vezes não se converte em facto. E se o arrastão virar um meet não significa que ambos correspondam à narrativa dominante. Num país onde no espaço de uns poucos meses dois homens assassinaram cada um uma mulher, fugiram à polícia e foram aplaudidos à saída do tribunal fica difícil perceber tamanha indignação com o não- acontecimento ocorrido no Centro Vasco da Gama. De invasão e furtos cometidos por centenas de jovens a mero incidente isolado entre dois rapazes e duas raparigas bastou o bom-senso do Director do centro comercial em questão. A mesma razoabilidade que levou depois o Comando da Região Metropolitana de Lisboa a desmentir um primeiro comunicado seu em relação aos 500 jovens que afinal eram 40 ou 50, quem sabe 3 ou 4 a causar distúrbios, na praia de Carcavelos. No meio de toda a trapalhada está a imprensa que não cumpre qualquer regra de deontologia – um palavrão para qualquer jornalista de sarjeta.

E se em 2005 os eventos levaram ao alarme geral e a manifestações xenófobas e racistas por parte do PNR, andemos então atentos nos próximos dias. Aproveitem para ler o jornal todo e não apenas a manchete ou o cabeçalho. Talvez devêssemos andar mais vigilantes no que concerne ao arrastão orçamental que se aproxima e aos meets promovidos para vender o Novo Banco e deixar os velhos prejuízos na conta dos mesmos de sempre.

O racismo é estrutural: apresentação da Carta de Lampedusa

Considero a luta contra o racismo numa perspectiva idealista um dos maiores obstáculos à construção de uma correlação de forças capaz de derrubar a opressão. Considerar as relações de dominação que condicionam vidas de milhões de pessoas em todo o mundo como mera ignorância ou uma questão de mero medo do Outro é uma posição de tal modo quixotesca que, no final do dia, apenas podemos esperar uma vitória sobre moinhos de vento. Neste sentido, tornar uma banana arremessada contra um futebolista num símbolo mundial pela igualdade racial apenas confunde e distrai os mais ingénuos do que realmente motiva negros a serem espoliados da sua dignidade. É a ponta superestrutural do icebergue; um mero reflexo de como o capitalismo converteu escravos em trabalhadores super e sobre-explorados devido à sua cor de pele.

Não deixa de ser irónico observar imagens de responsáveis políticos como Martin Schulz, candidato da bancada socialista europeia à presidência da Comissão Europeia, segurando uma banana. Talvez a fotografia perfeita para representar o papel de muitos eurodeputados no momento de travar a política repressiva da União Europeia sobre os imigrantes. Dizer não ao racismo não se compadece com a anuência perante a criação do estatuto de humanos ilegais, a existência de uma agência denominada Frontex financiada para impedir e perseguir imigrantes no sul e no leste da Europa, ou a permanência de centros de detenção desumanos para quem simplesmente pretende exercer o seu direito à mobilidade. É preciso dizer chega a uma política que tem trazido a morte de milhares de pessoas em pontos de passagem como Ceuta, Melilla e Lampedusa.

Foi com esta missão que 400 delegados de vários países se reuniram na ilha de Lampedusa entre 31 de Janeiro e 2 de Fevereiro: denunciar a política anti-imigratória e encontrar um paradigma alternativo assente na igualdade humana, independentemente de origens e fronteiras. Este esforço culminou na elaboração da Carta de Lampedusa que hoje (dia 2 de Maio) será apresentada na Casa da Achada como caderno n.º 5 pelo SOS Racismo. Será também uma oportunidade para ler as reeditadas Carta Mundial de Migrantes e Carta dos Residentes na Europa.

O cartaz:

Image

O descanso do Furacão

Para Muhammad Ali, a vitória de uma luta começava fora dos holofotes, antes do gingar da borboleta e da picada da abelha. Quando a atitude e a força psicológica obrigavam qualquer um naqueles loucos anos sessenta e setenta a aguentar os mais fulminantes ganchos do governo federal estadunidense sem ceder à contagem do árbitro. E como o combate não era limpo, nem podia sê-lo pelas contradições da sua sociedade, as perseguições do aparelho repressivo a comunistas e activistas nunca fizeram tantas vítimas dentro das suas fronteiras. Ser negro e militar num agrupamento revolucionário era meio caminho andado para o cárcere, a insanidade ou o definhamento.

Como esquecer a acção do COINTELPRO [1], a fazer inveja aos serviços secretos dos Estados mais déspotas da época? O assassinato de Fred Hampton, entre outros militantes dos Black Panthers e a prisão de Huey P. Newton, um dos seus fundadores, foram apenas alguns dos momentos mais marcantes de uma das operações de inteligência mais racistas e sofisticadas que o Tio Sam já alguma vez presenciou. A prisão de inúmeros negros com julgamentos politizados foi – e ainda o é – parte integrante da Justiça Americana. Neste preciso momento, Mumia Abu-Jamal [2] permanece preso, para citar um dos casos mais mediáticos. Outrora esteve Hurricane Carter, pugilista condenado pelo assassinato de três brancos num bar de Nova Jérsia. Ficou 20 anos preso até ser anulada a sua segunda condenação por alegado racismo do júri composto unicamente pelo tom de pele de Nixon.

Nascido como Rubin Carter, este atleta cedo percebeu como a superestrutura do país vencia round após round aqueles que se lhe opusessem. De 1993 a 2005 ainda foi director da AIDWYC – associação de defesa das vítimas dos erros judiciários. A sua vida pautou-se por dois dos maiores combates que se podem travar e que o atingiram fora dos ringues: tribunais americanos e cancro.

Bob Dylan imortalizou-o na sua voz:

__________________________________________________________

[1] Programa de Contra-Inteligência do FBI criado por J.Edgar Hoover para perseguir qualquer dissidência política que colocasse em causa a orientação política e económica do governo federal.

[2] Activista dos Black Panthers e ex-jornalista criador do programa radiofónico “the voice of the voiceless”, foi julgado e sentenciado à morte em 1982. O julgamento tem sido alvo de várias críticas e em 2011 Mumia-Abu Jamal foi mesmo retirado do corredor da morte.

Pela unidade de classe e contra o racismo no trabalho

As vestes do dia do trabalhador resplandecem a rubra coragem dos trabalhadores e trabalhadoras que se levantaram em 1886 na cidade de Chicago. O socialismo, o sangue e a humanidade completam o retrato da dignidade que contou mártires pela sua causa. A elementar jornada de oito horas não se deveu ao beneplácito da caneta patronal ou da virtude do governante; foi fruto da unidade do proletariado. Da Europa ao Bangladesh,  conquanto as condições objectivas se modifiquem no tempo e no plano geográfico, permanece o denominador comum: luta de classes. Constante do desenvolvimento materialista dialéctico e histórico.

No entanto, os mais incautos não saberão valorizar a importância da unidade de classe num momento de crise do sistema capitalista. Todos os motivos são bons motivos para a burguesia dividir o que une proletariado, seja pela divisão em categorias profissionais, entre homens e mulheres ou brancos e negros. O perigo do Outro assume especial acutilância no pestilento discurso conservador que, fazendo uso da velha máxima divide et impera, procura lucrar com a contradição. No caso da imigração e do racismo, esta apresenta-se em todo o esplendor. A mesma burguesia internacional que faz uso da cartilha neo-liberal para transferir capital e investi-lo com benefícios fiscais e sobre-exploração de trabalhadores africanos é a mesma que lhes nega o direito à mobilidade na procura de um salário que proporcione pelo menos a reprodução social do trabalho, quem sabe até a aquisição de bens produzidos por si a troco da quase escravidão – ou mesmo escravidão – para gáudio dos que lucram com a avultada mais-valia. Para esta trupe de chacais, a imigração é uma oportunidade e quem consegue chegar clandestinamente a terra sempre pode sujeitar-se à precariedade e ao trabalho fora do circuito legal. O resultado é a descida da média salarial e o dedo apontado ao trabalhador negro pelo trabalhador autóctone. Julgo, por isso, ser importante referir a exploração sobre o proletariado negro, com ainda especial atenção à mulher negra que ainda vive o flagelo da desigualdade laboral entre homens e mulheres.

Neste sentido, a iniciativa da Plataforma Gueto é premente como contributo para consciencializar os trabalhadores e as trabalhadoras portugueses que a classe os une e o capitalismo separa-os em raças. Por conseguinte, apresentar a especificidade de negros e negras no dia 1 de Maio não é enfraquecer mas sim proporcionar um salto qualitativo na solidariedade entre a classe trabalhadora contra quem realmente rouba trabalho e salários.

Image