O descanso do Furacão

Para Muhammad Ali, a vitória de uma luta começava fora dos holofotes, antes do gingar da borboleta e da picada da abelha. Quando a atitude e a força psicológica obrigavam qualquer um naqueles loucos anos sessenta e setenta a aguentar os mais fulminantes ganchos do governo federal estadunidense sem ceder à contagem do árbitro. E como o combate não era limpo, nem podia sê-lo pelas contradições da sua sociedade, as perseguições do aparelho repressivo a comunistas e activistas nunca fizeram tantas vítimas dentro das suas fronteiras. Ser negro e militar num agrupamento revolucionário era meio caminho andado para o cárcere, a insanidade ou o definhamento.

Como esquecer a acção do COINTELPRO [1], a fazer inveja aos serviços secretos dos Estados mais déspotas da época? O assassinato de Fred Hampton, entre outros militantes dos Black Panthers e a prisão de Huey P. Newton, um dos seus fundadores, foram apenas alguns dos momentos mais marcantes de uma das operações de inteligência mais racistas e sofisticadas que o Tio Sam já alguma vez presenciou. A prisão de inúmeros negros com julgamentos politizados foi – e ainda o é – parte integrante da Justiça Americana. Neste preciso momento, Mumia Abu-Jamal [2] permanece preso, para citar um dos casos mais mediáticos. Outrora esteve Hurricane Carter, pugilista condenado pelo assassinato de três brancos num bar de Nova Jérsia. Ficou 20 anos preso até ser anulada a sua segunda condenação por alegado racismo do júri composto unicamente pelo tom de pele de Nixon.

Nascido como Rubin Carter, este atleta cedo percebeu como a superestrutura do país vencia round após round aqueles que se lhe opusessem. De 1993 a 2005 ainda foi director da AIDWYC – associação de defesa das vítimas dos erros judiciários. A sua vida pautou-se por dois dos maiores combates que se podem travar e que o atingiram fora dos ringues: tribunais americanos e cancro.

Bob Dylan imortalizou-o na sua voz:

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[1] Programa de Contra-Inteligência do FBI criado por J.Edgar Hoover para perseguir qualquer dissidência política que colocasse em causa a orientação política e económica do governo federal.

[2] Activista dos Black Panthers e ex-jornalista criador do programa radiofónico “the voice of the voiceless”, foi julgado e sentenciado à morte em 1982. O julgamento tem sido alvo de várias críticas e em 2011 Mumia-Abu Jamal foi mesmo retirado do corredor da morte.

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