O exemplo da luta dos prisioneiros nos EUA*

Desde há mais de uma década que um número significativo de intelectuais revolucionários e activistas[1] tem estudado — numa retoma do trabalho que foi começado com o chamado “Movimento dos Direitos Civis” das décadas de 60 e 70 do século passado, nos Estados Unidos da América — o Complexo Prisional-Industrial (CPI)[2] dos EUA. Os seus valiosos estudos demonstram como as prisões, além de serem campos de concentração para trabalhadores que o capital não consegue explorar em condições normais — contentores para força de trabalho excedentária e lumpemproletarizada —, constituem também, e essencialmente em alguns países, um moderno sistema escravocrata que preserva o carácter racista do infame sistema anterior.[3] Em imperialismo, aprisionar trabalhadores tornou-se um negócio, a prisão tornou-se fábrica e o prisioneiro tornou-se operário super-explorado ou até não-pago, um escravo sui generis.

Assim, não é surpreendente que existam massivas campanhas de propaganda pela legitimação do CPI. Toda a “guerra contra as drogas” não é mais do que uma guerra contra os proletários — especialmente os negros, que constituem a maioria da população prisional — e pelo preenchimento das prisões.

No entanto, a análise crítica do CPI seria inútil se não animasse uma acção transformadora da realidade concreta. Esta acção, se deve incluir os intelectuais, tem necessariamente de basear-se na força de uma organização política dos operários aprisionados e de toda a classe trabalhadora.

Com efeito, tal como na prolífica época do camarada George Jackson, estamos hoje a assistir, nos EUA, a um incremento da consciência de classe por parte desta fracção particular do proletariado que são os prisioneiros. E uma prova incontestável deste facto são as greves de prisioneiros organizadas nas prisões de Alabama.

Melvin Ray, prisioneiro em St. Clair e um dos fundadores do Free Alabama Movement (F.A.M.), mostra esta tomada de consciência ao explicar que o Estado aprisiona humanos para criar trabalho não-pago (escravo). Diz ele: “decidimos que a única arma ou estratégia que temos é o trabalho, porque é essa a única razão de aqui estarmos.”[4]

Inspirada por esta consciência revolucionária, o F.A.M. organizou uma nova greve nas prisões de Alabama que terá início amanhã, domingo, dia 20 de Abril. Sabemo-lo porque, reafirmando a consciência da sua condição de proletários, os militantes do F.A.M. contactaram a Industrial Workers of the World, uma histórica organização de trabalhadores, convocando toda a classe para apoiar esta luta.

Ora, se é evidente que os complexos prisionais no Brasil e em Portugal têm as suas especificidades — e dificilmente podem, por enquanto, ser chamados “industriais” —, é, contudo, igualmente evidente que para alcançar uma sociedade em que todos os homens e todas as mulheres possam desenvolver as suas potencialidades livres da exploração e da opressão, as prisões têm de ser combatidas até à abolição.

Devemos, por isso, além de aprender com a luta dos nossos irmãos nos EUA e em todos os outros países do mundo, participar na criação de novas frentes de luta nos países onde nos encontrarmos.

Infelizmente, no Brasil, com as suas prisões sobrelotadas pela quarta maior população prisional do mundo e uma longa história de revoltas prisionais — muitas das quais sem qualquer reivindicação apresentada pelos prisioneiros[5] —, a luta ainda não alcançou o nível que tem nos EUA. Já em Portugal, começou apenas a ser aflorada por organizações como a Plataforma Gueto e pessoas como António Pedro Dores, mas uma organização política de prisioneiros com uma consciência de classe é ainda, lamentavelmente, uma visão longínqua.

_______________________________________________________

* Na Imagem: Prisioneiros a caminho do trabalho sob a vigilância do capataz, na Prisão Angola, no Estado de Louisiana, EUA.

[1] Entre estes revolucionários e activistas, é pertinente destacar Angela Davis, Rose Braz e Ruthie Gilmore, as fundadoras da Critical Resistance, uma organização que tem como objectivo nada menos do que a completa abolição das prisões.

[2] Chamamos Complexo Prisional-Industrial a todo o sistema prisional que utiliza a prisão não apenas como órgão de repressão do Estado burguês mas também como unidade de produção de mercadorias e, portanto, que organiza a exploração da força de trabalho dos prisioneiros — o que acontece em condições tão extremas de super-exploração que se pode classificar como escravatura.

[3] Devemos agradecer a Michelle Alexander a demonstração mais actual e arrasadora do racismo no CPI dos EUA, na sua obra “The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness”.

[4] Eidelson, Josh. “Exclusive: Inmates to strike in Alabama, declare prison is ‘running a slave empire’,” Salon, April 18, 2014. http://www.salon.com/2014/04/18/exclusive_prison_inmates_to_strike_in_alabama_declare_they%E2%80%99re_running_a_slave_empire/

[5] Uma destas revoltas terminou com o famoso Massacre do Carandiru. Já outras, como a recente Rebelião das Pedrinhas, em 2010, tiveram a apresentação de reivindicações incipientes por parte dos prisioneiros.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s