Discutir a beleza em imperialismo

A dominação imperialista, o exercício do controlo por parte de um punhado de países sobre as forças produtivas dos países dominados, ou seja, sobre as suas economias, condiciona toda a cultura — suporta uma superstrutura própria, um certo conjunto de ideias. Estas ideias são, naturalmente, as ideias mais favoráveis à continuação do imperialismo. Assim, os povos que foram colonizados e se vêem hoje neocolonizados são constantemente bombardeados com torrentes de produtos culturais dos países dominantes; música, cinema, televisão, literatura… Estes produtos, repletos de violência simbólica, disseminam os juízos estéticos dos países dominantes, apresentando a brancura como sinónimo de beleza, de forma tal que até quando surge uma produção paralela e massificada nos países dominados — os casos da Índia (Bollywood), Nigéria (Nollywood) e, o mais impressionante, o Brasil (com a Rede Globo) destacam-se —, esta é em grande medida uma imitação reles da cultura dos países dominantes e reproduz fielmente os seus valores.

Os efeitos concretos desta componente cultural do imperialismo são imensos. De facto, em países tão variados como Mali, Nigéria, Senegal, África do Sul, Togo, Índia, China, Malásia, Filipinas, Coreia do Sul, Brasil e as chamadas “minorias” dos Estados Unidos da América é comum a utilização de cremes de branqueamento da pele, especialmente entre as mulheres. Ora, hábitos como este não só constituem uma ameaça para a saúde como, julgamos ser evidente, revelam uma regularidade social preocupante. E muitos outros exemplos poderiam ser dados.

Parece-nos urgente, assim sendo, a discussão deste problema por parte daqueles e daquelas que o sofrem, e não poderíamos deixar de apoiar efusivamente a iniciativa do Núcleo de Estudos Africanos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que organizou uma tertúlia, moderada pela jornalista Carla Fernandes (a mentora do projecto Rádio AfroLis), precisamente sobre o padrão de beleza e a representação da mulher negra nos media.

Aqui reproduzimos o cartaz e apelamos à participação de todos os negros e negras, já na próxima quarta-feira!

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Tertúlia

A Revolução Portuguesa é a nossa revolução

O revisionismo histórico da direita, que vive em estável crescimento desde 25 de Novembro de 1975, há já largos anos que alcançou uma dimensão que roça o ridículo. Historiadores burgueses esforçam-se por branquear o Estado Novo e travestir o colonialismo desavergonhadamente, por apresentar todas as conquistas dos trabalhadores como obra de um punhado de militares heróicos e retratar o PREC como um período de desordem e excessos de um povo naturalmente brando que se deixou levar pela retórica inflamada dos “esquerdistas”. Mas, acima de tudo, estes ideólogos da classe dominante, capazes de cometer qualquer crime por menos de 30 moedas de prata, separam as Revoluções Africanas da Revolução Portuguesa.

Nós, trabalhadores negros, não esquecemos:

Foi nas matas da Guiné-Bissau, de Angola e de Moçambique que o fascismo sofreu os mais determinantes golpes e humilhações, e o processo que começou a 25 de Abril de 1974 não foi mais do que o culminar de uma luta internacional que travámos lado-a-lado com todos os explorados de Portugal que, tal como nós, há muito resistiam ao fascismo com todos os meios de que dispunham.

Sim, a Revolução Portuguesa é a irmã das Revoluções Africanas e é também a nossa revolução! E hoje, quando nacionalismos bacocos germinam sob a ignorância e semeiam a desunião de classe, é urgente que o recordemos aos trabalhadores portugueses. Porque a memória é mais um campo de batalha onde as classes se digladiam, porque resta muito por fazer.

O descanso do Furacão

Para Muhammad Ali, a vitória de uma luta começava fora dos holofotes, antes do gingar da borboleta e da picada da abelha. Quando a atitude e a força psicológica obrigavam qualquer um naqueles loucos anos sessenta e setenta a aguentar os mais fulminantes ganchos do governo federal estadunidense sem ceder à contagem do árbitro. E como o combate não era limpo, nem podia sê-lo pelas contradições da sua sociedade, as perseguições do aparelho repressivo a comunistas e activistas nunca fizeram tantas vítimas dentro das suas fronteiras. Ser negro e militar num agrupamento revolucionário era meio caminho andado para o cárcere, a insanidade ou o definhamento.

Como esquecer a acção do COINTELPRO [1], a fazer inveja aos serviços secretos dos Estados mais déspotas da época? O assassinato de Fred Hampton, entre outros militantes dos Black Panthers e a prisão de Huey P. Newton, um dos seus fundadores, foram apenas alguns dos momentos mais marcantes de uma das operações de inteligência mais racistas e sofisticadas que o Tio Sam já alguma vez presenciou. A prisão de inúmeros negros com julgamentos politizados foi – e ainda o é – parte integrante da Justiça Americana. Neste preciso momento, Mumia Abu-Jamal [2] permanece preso, para citar um dos casos mais mediáticos. Outrora esteve Hurricane Carter, pugilista condenado pelo assassinato de três brancos num bar de Nova Jérsia. Ficou 20 anos preso até ser anulada a sua segunda condenação por alegado racismo do júri composto unicamente pelo tom de pele de Nixon.

Nascido como Rubin Carter, este atleta cedo percebeu como a superestrutura do país vencia round após round aqueles que se lhe opusessem. De 1993 a 2005 ainda foi director da AIDWYC – associação de defesa das vítimas dos erros judiciários. A sua vida pautou-se por dois dos maiores combates que se podem travar e que o atingiram fora dos ringues: tribunais americanos e cancro.

Bob Dylan imortalizou-o na sua voz:

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[1] Programa de Contra-Inteligência do FBI criado por J.Edgar Hoover para perseguir qualquer dissidência política que colocasse em causa a orientação política e económica do governo federal.

[2] Activista dos Black Panthers e ex-jornalista criador do programa radiofónico “the voice of the voiceless”, foi julgado e sentenciado à morte em 1982. O julgamento tem sido alvo de várias críticas e em 2011 Mumia-Abu Jamal foi mesmo retirado do corredor da morte.

O exemplo da luta dos prisioneiros nos EUA*

Desde há mais de uma década que um número significativo de intelectuais revolucionários e activistas[1] tem estudado — numa retoma do trabalho que foi começado com o chamado “Movimento dos Direitos Civis” das décadas de 60 e 70 do século passado, nos Estados Unidos da América — o Complexo Prisional-Industrial (CPI)[2] dos EUA. Os seus valiosos estudos demonstram como as prisões, além de serem campos de concentração para trabalhadores que o capital não consegue explorar em condições normais — contentores para força de trabalho excedentária e lumpemproletarizada —, constituem também, e essencialmente em alguns países, um moderno sistema escravocrata que preserva o carácter racista do infame sistema anterior.[3] Em imperialismo, aprisionar trabalhadores tornou-se um negócio, a prisão tornou-se fábrica e o prisioneiro tornou-se operário super-explorado ou até não-pago, um escravo sui generis.

Assim, não é surpreendente que existam massivas campanhas de propaganda pela legitimação do CPI. Toda a “guerra contra as drogas” não é mais do que uma guerra contra os proletários — especialmente os negros, que constituem a maioria da população prisional — e pelo preenchimento das prisões.

No entanto, a análise crítica do CPI seria inútil se não animasse uma acção transformadora da realidade concreta. Esta acção, se deve incluir os intelectuais, tem necessariamente de basear-se na força de uma organização política dos operários aprisionados e de toda a classe trabalhadora.

Com efeito, tal como na prolífica época do camarada George Jackson, estamos hoje a assistir, nos EUA, a um incremento da consciência de classe por parte desta fracção particular do proletariado que são os prisioneiros. E uma prova incontestável deste facto são as greves de prisioneiros organizadas nas prisões de Alabama.

Melvin Ray, prisioneiro em St. Clair e um dos fundadores do Free Alabama Movement (F.A.M.), mostra esta tomada de consciência ao explicar que o Estado aprisiona humanos para criar trabalho não-pago (escravo). Diz ele: “decidimos que a única arma ou estratégia que temos é o trabalho, porque é essa a única razão de aqui estarmos.”[4]

Inspirada por esta consciência revolucionária, o F.A.M. organizou uma nova greve nas prisões de Alabama que terá início amanhã, domingo, dia 20 de Abril. Sabemo-lo porque, reafirmando a consciência da sua condição de proletários, os militantes do F.A.M. contactaram a Industrial Workers of the World, uma histórica organização de trabalhadores, convocando toda a classe para apoiar esta luta.

Ora, se é evidente que os complexos prisionais no Brasil e em Portugal têm as suas especificidades — e dificilmente podem, por enquanto, ser chamados “industriais” —, é, contudo, igualmente evidente que para alcançar uma sociedade em que todos os homens e todas as mulheres possam desenvolver as suas potencialidades livres da exploração e da opressão, as prisões têm de ser combatidas até à abolição.

Devemos, por isso, além de aprender com a luta dos nossos irmãos nos EUA e em todos os outros países do mundo, participar na criação de novas frentes de luta nos países onde nos encontrarmos.

Infelizmente, no Brasil, com as suas prisões sobrelotadas pela quarta maior população prisional do mundo e uma longa história de revoltas prisionais — muitas das quais sem qualquer reivindicação apresentada pelos prisioneiros[5] —, a luta ainda não alcançou o nível que tem nos EUA. Já em Portugal, começou apenas a ser aflorada por organizações como a Plataforma Gueto e pessoas como António Pedro Dores, mas uma organização política de prisioneiros com uma consciência de classe é ainda, lamentavelmente, uma visão longínqua.

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* Na Imagem: Prisioneiros a caminho do trabalho sob a vigilância do capataz, na Prisão Angola, no Estado de Louisiana, EUA.

[1] Entre estes revolucionários e activistas, é pertinente destacar Angela Davis, Rose Braz e Ruthie Gilmore, as fundadoras da Critical Resistance, uma organização que tem como objectivo nada menos do que a completa abolição das prisões.

[2] Chamamos Complexo Prisional-Industrial a todo o sistema prisional que utiliza a prisão não apenas como órgão de repressão do Estado burguês mas também como unidade de produção de mercadorias e, portanto, que organiza a exploração da força de trabalho dos prisioneiros — o que acontece em condições tão extremas de super-exploração que se pode classificar como escravatura.

[3] Devemos agradecer a Michelle Alexander a demonstração mais actual e arrasadora do racismo no CPI dos EUA, na sua obra “The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness”.

[4] Eidelson, Josh. “Exclusive: Inmates to strike in Alabama, declare prison is ‘running a slave empire’,” Salon, April 18, 2014. http://www.salon.com/2014/04/18/exclusive_prison_inmates_to_strike_in_alabama_declare_they%E2%80%99re_running_a_slave_empire/

[5] Uma destas revoltas terminou com o famoso Massacre do Carandiru. Já outras, como a recente Rebelião das Pedrinhas, em 2010, tiveram a apresentação de reivindicações incipientes por parte dos prisioneiros.

Mamã negra (Canto de esperança), um poema de Viriato da Cruz

 

Mamã Negra

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

 

Tua presença, minha Mãe – drama vivo duma Raça
drama de carne e sangue
que a Vida escreveu com a pena de séculos.

 

Pela tua voz

 

Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais dos
[seringais dos algodoais…
Vozes das plantações da Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil…
Vozes dos engenhos dos banguês das tongas
[dos eitos das pampas das usinas
Vozes do Harlem District South
vozes das sanzalas
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi,
[ecoando dos vagões.
Vozes chorando na voz de Carrothers:
Lord God, what will have we done
Vozes de toda a América. Vozes de toda a África.
Vozes de todas as vozes, na voz altiva da Langston
na bela voz de Guillén..

 

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aos sóis mais fortes do mundo
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo
Rebrilhantes dorsos (ai a cor desses dorsos…)
Rebrilhantes dorsos torcidos no tronco, pendentes da forca
[caídos por Lynch.
Rebrilhantes dorsos (ah, como brilham esses dorsos),
ressuscitados com Zumbi, em Toussaint alevantados.
Rebrilhantes dorsos…
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
…do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo…

 

Pelo teu regaço, minha Mãe

 

Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça…
santos poetas e sábios…
Outras gentes… não teus filhos,

 

que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias
mais são filhos da desgraça
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo – folguedo…

 

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
claridades de sol posto, paisagens
roxas paisagens
dramas de Cam e Jafé…
Mas vejo também (oh, se vejo…)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora – como a Certeza…
cintilantemente firme – como a Esperança…
em nós outros teus filhos,
gerando, formando, anunciando
– o dia da humanidade
O Dia da Humanidade…

Pela unidade de classe e contra o racismo no trabalho

As vestes do dia do trabalhador resplandecem a rubra coragem dos trabalhadores e trabalhadoras que se levantaram em 1886 na cidade de Chicago. O socialismo, o sangue e a humanidade completam o retrato da dignidade que contou mártires pela sua causa. A elementar jornada de oito horas não se deveu ao beneplácito da caneta patronal ou da virtude do governante; foi fruto da unidade do proletariado. Da Europa ao Bangladesh,  conquanto as condições objectivas se modifiquem no tempo e no plano geográfico, permanece o denominador comum: luta de classes. Constante do desenvolvimento materialista dialéctico e histórico.

No entanto, os mais incautos não saberão valorizar a importância da unidade de classe num momento de crise do sistema capitalista. Todos os motivos são bons motivos para a burguesia dividir o que une proletariado, seja pela divisão em categorias profissionais, entre homens e mulheres ou brancos e negros. O perigo do Outro assume especial acutilância no pestilento discurso conservador que, fazendo uso da velha máxima divide et impera, procura lucrar com a contradição. No caso da imigração e do racismo, esta apresenta-se em todo o esplendor. A mesma burguesia internacional que faz uso da cartilha neo-liberal para transferir capital e investi-lo com benefícios fiscais e sobre-exploração de trabalhadores africanos é a mesma que lhes nega o direito à mobilidade na procura de um salário que proporcione pelo menos a reprodução social do trabalho, quem sabe até a aquisição de bens produzidos por si a troco da quase escravidão – ou mesmo escravidão – para gáudio dos que lucram com a avultada mais-valia. Para esta trupe de chacais, a imigração é uma oportunidade e quem consegue chegar clandestinamente a terra sempre pode sujeitar-se à precariedade e ao trabalho fora do circuito legal. O resultado é a descida da média salarial e o dedo apontado ao trabalhador negro pelo trabalhador autóctone. Julgo, por isso, ser importante referir a exploração sobre o proletariado negro, com ainda especial atenção à mulher negra que ainda vive o flagelo da desigualdade laboral entre homens e mulheres.

Neste sentido, a iniciativa da Plataforma Gueto é premente como contributo para consciencializar os trabalhadores e as trabalhadoras portugueses que a classe os une e o capitalismo separa-os em raças. Por conseguinte, apresentar a especificidade de negros e negras no dia 1 de Maio não é enfraquecer mas sim proporcionar um salto qualitativo na solidariedade entre a classe trabalhadora contra quem realmente rouba trabalho e salários.

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O Quilombo

Dizem que somos negros.

Este facto pode parecer acidental, mas nem por isso se torna negligenciável. Toda a nossa existência é enformada por ele. Todo o nosso percurso, desde o primórdio uterino ao dia presente, se processou dentro dos limites que nos foram impostos por esta condição. Assim, compreender exactamente o que significa ser “negro” tornou-se muito cedo, para nós, uma necessidade. Em boa verdade, todos os negros o fazem mais ou menos conscientemente — ousamos até dizer que nem um único negro no mundo é capaz de alcançar a idade da razão sem albergar já, no seu íntimo, um certo número de certezas a este respeito.

Da nossa parte, parece-nos que pelo menos um facto é evidente: ser negro é ser oprimido.

Ora, O Quilombo é precisamente um esforço colectivo de análise, sistematização e exposição da experiência negra com a finalidade de produzir e disseminar um conjunto de teorias sociais e políticas que sirva de arma na luta contra a opressão e a exploração.

Neste ponto, devemos deter-nos para prestar alguns esclarecimentos.

É por demais comum que, ao inaugurar um blogue, autores se dediquem a patéticas enunciações sobre a liberdade de expressão pela qual se pautará o novo sítio da blogosfera, insinuando uma oposição entre tecnocracia e política para, de seguida, se declararem livres da segunda na mesma medida em que se firmam na primeira. Nós, quilombolas, só podemos responder a tais autores com escárnio. Não há maior demonstração de cobardia do que a ostentação das vestes bafientas da neutralidade. Todos aqueles que se cobrem com elas fazem-no apenas para esconder a sua estima pelo status quo e a insalubridade dos seus argumentos.

O Quilombo não pretende ser nem neutral nem “livre” na acepção burguesa e hoje vulgarizada do termo. Este é um espaço onde as falácias, a mentira, o revisionismo, o oportunismo, o populismo e todo o discurso reaccionário serão rechaçados com intransigência absoluta.

Se dizem que somos negros, afirmamos que somos igualmente proletários — para ganhar o pão de cada dia, dispomos apenas da nossa força, seja ela muscular ou cerebral. E em ser proletário, como em ser negro, existe um conjunto incontornável de interesses que se antagonizam com os interesses dos que vivem da exploração do nosso trabalho — esses serão sempre os nossos inimigos.

Cientes deste facto — a luta de classes —, faremos análises da realidade que partirão da infra-estrutura económica da sociedade, i.e., utilizaremos o método materialista-dialéctico.

Para lá do método, nenhuma análise será livre de refutação, unanimemente aceite entre quilombolas ou estanque. Não pretendemos anular à partida qualquer contradição que exista entre nós, posto que ela é a mãe de todo o movimento e só na dialéctica poderão as nossas ideias evoluir e fortalecer-se.

Viemos resgatar as palavras raça e racismo da obscuridade a que foram condenadas, para as devolver à luz do dia. Viemos ser o toque de finados do discurso sentimentalista e moral sobre a “discriminação” das “minorias étnicas” que é repetido ad nauseam pelo exército burguês de altos-comissários, politiqueiros oportunistas, jornalistas incompetentes, fúngicos comentadores televisivos, historiadores revisionistas, sociólogos mistificadores, antropólogos exotistas e toda a estirpe de académicos pedantes que mais não fazem do que reproduzir as relações de dominação existentes ao procurar abstraí-las do mundo material e transportá-las para a dimensão alucinada dos espíritos — negando, portanto, a natureza fundamentalmente económica dessas relações.

Na verdade, desde os guetos negros e árabes da Europa e dos Estados Unidos até às minas da África do sul onde se derrama o sangue de operários martirizados na ponta de metralhadoras, desde as infernais fábricas têxteis alimentadas com trabalho infantil no sudeste-asiático às terras confiscadas dos indígenas sul-americanos e desde o muro da Cisjordânia aos degradantes e sobrelotados guetos de aborígenes australianos, o inimigo é o mesmo: o imperialismo — fase superior do capitalismo, possibilitador de lucros avultados e terreno fértil para a partilha do mundo pela classe burguesa. Mas esta sobre-exploração da força de trabalho dos povos neocolonizados, com todo o horror genocida que implica, só pode ser mantida através do racismo. Fazemos, por isso, nossas as palavras de Fanon:

O racismo entra pelos olhos dentro precisamente porque se insere num conjunto caracterizado: o da exploração desavergonhada de um grupo de homens por outro que chegou a um estádio de desenvolvimento técnico superior. É por isso que, na maioria das vezes, a opressão militar e económica precede, possibilita e legitima o racismo.

O hábito de considerar o racismo como uma disposição do espírito, como uma tara psicológica, deve ser abandonado.[1]

Os Quilombolas

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[1] Frantz Fanon, “Racismo e Cultura,” in Em Defesa da Revolução Africana. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1980.